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O conflito entre o efêmero e o sustentável nas passarelas de Milão e Paris

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Publicado em

09 de outubro de 2026

Por Sam Maryama, diretor da Walk4Good

As coleções femininas de primavera e verão 2027 foram as primeiras apresentadas em Milão e Paris depois que passou a valer, na União Europeia, a proibição de grandes empresas destruírem roupas, acessórios e calçados não vendidos. No fim de setembro, com os desfiles em andamento, entrou em aplicação a diretiva europeia contra o greenwashing, que veda alegações de neutralidade climática baseadas em compensação de emissões.

Duas vezes por ano, as semanas de moda das duas cidades ditam os rumos do desejo e do consumo global. Milão apresenta o auge da alfaiataria técnica, do luxo artesanal e da tradição têxtil; Paris consolida o espetáculo conceitual, a haute couture e a validação do status cultural da indústria.

Por trás da aura de exclusividade e inovação estética, as passarelas contrastam com os princípios de ESG (Environmental, Social, and Governance). A moda, como sistema, se baseia na aceleração contínua das tendências, na obsolescência planejada e no estímulo ao consumo constante. Como conciliar esse ciclo de brevidade com a urgência da sustentabilidade climática e social?

No pilar ambiental, as marcas de alto luxo costumam se distanciar da fast fashion, com o argumento de que suas peças duram mais e têm valor de herança. O impacto da alta moda, porém, é relevante. Há o transporte global de coleções e a montagem de estruturas efêmeras para desfiles de poucos minutos, mas o maior peso está na cadeia de suprimentos: na LVMH, 96% da pegada de carbono do grupo vem do escopo 3, que reúne as emissões indiretas, segundo a empresa. No vestuário como um todo, o Apparel Impact Institute estima 1 bilhão de toneladas de emissões em 2024, alta de 6,3% sobre o ano anterior, com 51% concentrados no processamento têxtil. Para seguir a trajetória de 1,5 °C, o setor precisaria chegar a 2030 com 489 milhões de toneladas, cerca de metade do nível atual. Couros exóticos, lãs finas e tecidos sintéticos exigem transformação das cadeias, com biomateriais e tingimento de baixo impacto hídrico.

No aspecto social, o desafio vai além das condições de trabalho na confecção final. Em 2024, a Justiça de Milão colocou uma subsidiária da Dior sob administração judicial, após investigação apontar oficinas subcontratadas que maltratavam trabalhadores. Em um dos modelos analisados, o fornecedor chegava a cobrar 53 euros por uma bolsa vendida a 2.600 euros, cerca de 2% do preço final. Na época, a Dior não era alvo de investigação criminal. Uma unidade da Armani passou pela mesma medida, e as duas administrações terminaram antes do prazo, em 2025, depois de reforço nos controles sobre fornecedores. A rastreabilidade precisa alcançar toda a cadeia, do cultivo do algodão ao beneficiamento dos tecidos em países em desenvolvimento. Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, cerca de 70% das emissões ligadas ao consumo de têxteis na União Europeia ocorrem fora da Europa. Há também uma dimensão cultural: a cobrança por diversidade genuína, que vá além do casting das passarelas e alcance cargos executivos e de criação, e o combate à apropriação cultural sem o devido reconhecimento de comunidades tradicionais.

A governança corporativa se tornou o ponto de inflexão para os grandes grupos do setor. Diante de legislações mais rigorosas na União Europeia e da pressão de investidores e consumidores jovens, relatórios de sustentabilidade e metas de neutralidade de carbono passaram a integrar a estratégia das maisons. A proibição da destruição de estoque mira um problema de escala: segundo a Comissão Europeia, de 4% a 9% dos têxteis não vendidos na Europa são destruídos antes do uso, o que gera 5,6 milhões de toneladas de CO2 por ano, quase o total líquido da Suécia em 2021. O risco de greenwashing, no entanto, permanece elevado quando anúncios institucionais não vêm acompanhados de redução efetiva do volume de produção.

As semanas de moda de Milão e Paris continuam sendo espaços vitais de expressão artística, identidade e cultura. O teste para o luxo contemporâneo está na capacidade de reinventar a própria indústria, com emissões em queda, cadeias rastreáveis e produção compatível com os limites do planeta. O mercado de segunda mão, por exemplo, cresce mais rápido que o de peças novas: segundo a Bain e a Altagamma, as vendas de luxo usado subiram de 4% a 6% em 2025 e chegaram a cerca de 50 bilhões de euros. O belo e o desejável só farão sentido se forem feitos com respeito às pessoas e ao meio ambiente.

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