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El Niño não é previsão do tempo. É variável de negócio.

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Publicado em

20 de maio de 2026

Por Sam Maryama, diretor da Walk4Good

Existe uma reunião de planejamento estratégico acontecendo agora em alguma empresa brasileira. Provavelmente há slides sobre cenário macroeconômico, juros, câmbio e geopolítica. O tema mudanças climáticas até aparece, muitas vezes dentro da agenda de ESG, que já ganhou espaço legítimo nas discussões de governança e gestão de riscos. Mas deve entrar com maior profundidade nas premissas de vendas, custos ou continuidade operacional em toda a cadeia de valor das empresas. 

Essa lógica precisa ser revisitada.  

As projeções mais recentes dos principais centros meteorológicos do mundo, entre eles o Centro de Previsão Climática da NOAA (agência oceânica e atmosférica do governo americano), indicam que as chances de El Niño ultrapassam 90% entre setembro e novembro de 2026, com possibilidade de evento de intensidade forte a muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. O INPE e o INMET reforçam esse cenário, destacando maior probabilidade de eventos mais intensos ao longo do segundo semestre. A dúvida não é mais se o fenômeno vai acontecer, mas com qual intensidade e quais setores vão sentir primeiro seus impactos. 

Por que isso importa para os negócios? 

O Super El Niño, como especialistas têm chamado, não afeta o território de forma uniforme. No Sul do país, a tendência é de chuvas acima da média. No Centro Oeste e Sudeste, aumento da probabilidade de condições mais quentes e períodos menos chuvosos. No Norte e Nordeste, maior risco de condições mais secas em amplas áreas, com impacto direto sobre rios, reservatórios e abastecimento. Esses padrões não são garantidos, mas são indicações estatísticas que orientam planos de contingência. 

Esse mapa tem consequências práticas que se propagam em cadeia, com efeito dominó. O agronegócio sofre com instabilidade de safra e custos maiores de produção. Especialistas apontam que o fator climático pode adicionar quase 1 ponto percentual à inflação geral em 2026, em função de choques de alimentos e energia. Níveis de vários rios amazônicos já operam abaixo da média histórica, o que pressiona os corredores logísticos do Norte, responsáveis por grande parte do escoamento de grãos do país. O sistema elétrico, cada vez mais dependente de hidrelétricas, enfrenta o risco de acionar termelétricas, mais caras e mais poluentes. E o crédito rural, já pressionado por inadimplência elevada, pode se deteriorar ainda mais, com repercussões sobre bancos e seguradoras. 

O problema é que os impactos não permanecem restritos ao clima. Eles contaminam cadeias produtivas, crédito, inflação, consumo, reputação e previsibilidade operacional. 

O Brasil já experimentou parte dessa vulnerabilidade recentemente. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul, em 2024, provocaram perdas estimadas em quase R$ 90 bilhões, segundo estudos de órgãos federais e organismos internacionais, interromperam cadeias logísticas e evidenciaram como eventos climáticos extremos deixaram de ser um risco periférico para se tornar uma variável econômica concreta. 

Não é alarmismo. É a leitura que instituições como Bradesco BBI e Bank of America já estão fazendo em relatórios publicados neste mês, e que começa a influenciar decisões de portfólio e precificação de risco. 

Três eixos de perguntas para guiar o diagnóstico:

Onde sua cadeia está exposta?

  • Quais insumos vêm de regiões vulneráveis à seca?
  • Quais rotas logísticas podem ser afetadas?
  • Qual é o grau de dependência energética de fontes hidráulicas?

Sua cobertura de risco está atualizada?

  • As apólices de seguro estão alinhadas aos novos cenários de seca, enchentes e ondas de calor?
  • Os contratos de fornecimento contemplam cláusulas de força maior ou ajustes sazonais?
  • Há estratégias de proteção financeira para choques de preço de commodities e energia?

O tema já chegou ao planejamento estratégico?

  • O clima aparece apenas no relatório de ESG ou também nas premissas de vendas, custos e risco?
  • Há planos de contingência discutidos com área de risco, finanças e operações?
  • As decisões de investimento e expansão já incorporam cenários de El Niño e de eventos climáticos extremos?

Uma mudança de paradigma 

Eventos climáticos extremos estão deixando de ser exceção para se tornar a régua operacional. A história recente já mostra isso: a seca de 2022 e 2023 gerou perdas na ordem de dezenas de bilhões de reais para o setor produtivo brasileiro, segundo análises recentes da consultoria de riscos Aon. 

A pergunta que fica não é sobre o El Niño de 2026 especificamente. É sobre quanto das operações e das decisões de negócio da sua empresa já incorporam o clima como variável permanente e não como evento para gerenciar quando chegar. 

Pois sempre haverá um próximo. E empresas que ainda tratam clima como agenda paralela talvez descubram tarde demais que ele já passou a determinar custo, operação e competitividade

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