Por Sam Maryama, diretor da Walk4Good
Existe uma reunião de planejamento estratégico acontecendo agora em alguma empresa brasileira. Provavelmente há slides sobre cenário macroeconômico, juros, câmbio e geopolítica. O tema mudanças climáticas até aparece, muitas vezes dentro da agenda de ESG, que já ganhou espaço legítimo nas discussões de governança e gestão de riscos. Mas deve entrar com maior profundidade nas premissas de vendas, custos ou continuidade operacional em toda a cadeia de valor das empresas.
Essa lógica precisa ser revisitada.
As projeções mais recentes dos principais centros meteorológicos do mundo, entre eles o Centro de Previsão Climática da NOAA (agência oceânica e atmosférica do governo americano), indicam que as chances de El Niño ultrapassam 90% entre setembro e novembro de 2026, com possibilidade de evento de intensidade forte a muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. O INPE e o INMET reforçam esse cenário, destacando maior probabilidade de eventos mais intensos ao longo do segundo semestre. A dúvida não é mais se o fenômeno vai acontecer, mas com qual intensidade e quais setores vão sentir primeiro seus impactos.
Por que isso importa para os negócios?
O Super El Niño, como especialistas têm chamado, não afeta o território de forma uniforme. No Sul do país, a tendência é de chuvas acima da média. No Centro Oeste e Sudeste, aumento da probabilidade de condições mais quentes e períodos menos chuvosos. No Norte e Nordeste, maior risco de condições mais secas em amplas áreas, com impacto direto sobre rios, reservatórios e abastecimento. Esses padrões não são garantidos, mas são indicações estatísticas que orientam planos de contingência.
Esse mapa tem consequências práticas que se propagam em cadeia, com efeito dominó. O agronegócio sofre com instabilidade de safra e custos maiores de produção. Especialistas apontam que o fator climático pode adicionar quase 1 ponto percentual à inflação geral em 2026, em função de choques de alimentos e energia. Níveis de vários rios amazônicos já operam abaixo da média histórica, o que pressiona os corredores logísticos do Norte, responsáveis por grande parte do escoamento de grãos do país. O sistema elétrico, cada vez mais dependente de hidrelétricas, enfrenta o risco de acionar termelétricas, mais caras e mais poluentes. E o crédito rural, já pressionado por inadimplência elevada, pode se deteriorar ainda mais, com repercussões sobre bancos e seguradoras.
O problema é que os impactos não permanecem restritos ao clima. Eles contaminam cadeias produtivas, crédito, inflação, consumo, reputação e previsibilidade operacional.
O Brasil já experimentou parte dessa vulnerabilidade recentemente. As enchentes históricas no Rio Grande do Sul, em 2024, provocaram perdas estimadas em quase R$ 90 bilhões, segundo estudos de órgãos federais e organismos internacionais, interromperam cadeias logísticas e evidenciaram como eventos climáticos extremos deixaram de ser um risco periférico para se tornar uma variável econômica concreta.
Não é alarmismo. É a leitura que instituições como Bradesco BBI e Bank of America já estão fazendo em relatórios publicados neste mês, e que começa a influenciar decisões de portfólio e precificação de risco.
Três eixos de perguntas para guiar o diagnóstico:
Onde sua cadeia está exposta?
- Quais insumos vêm de regiões vulneráveis à seca?
- Quais rotas logísticas podem ser afetadas?
- Qual é o grau de dependência energética de fontes hidráulicas?
Sua cobertura de risco está atualizada?
- As apólices de seguro estão alinhadas aos novos cenários de seca, enchentes e ondas de calor?
- Os contratos de fornecimento contemplam cláusulas de força maior ou ajustes sazonais?
- Há estratégias de proteção financeira para choques de preço de commodities e energia?
O tema já chegou ao planejamento estratégico?
- O clima aparece apenas no relatório de ESG ou também nas premissas de vendas, custos e risco?
- Há planos de contingência discutidos com área de risco, finanças e operações?
- As decisões de investimento e expansão já incorporam cenários de El Niño e de eventos climáticos extremos?
Uma mudança de paradigma
Eventos climáticos extremos estão deixando de ser exceção para se tornar a régua operacional. A história recente já mostra isso: a seca de 2022 e 2023 gerou perdas na ordem de dezenas de bilhões de reais para o setor produtivo brasileiro, segundo análises recentes da consultoria de riscos Aon.
A pergunta que fica não é sobre o El Niño de 2026 especificamente. É sobre quanto das operações e das decisões de negócio da sua empresa já incorporam o clima como variável permanente e não como evento para gerenciar quando chegar.
Pois sempre haverá um próximo. E empresas que ainda tratam clima como agenda paralela talvez descubram tarde demais que ele já passou a determinar custo, operação e competitividade

