Por Sam Maryama, diretor da Walk4Good
A sustentabilidade mais poderosa de uma empresa não é a que aparece no relatório anual. É a que acontece numa terça-feira de manhã, quando ninguém está olhando: na decisão de não imprimir aquele documento, no gesto de apagar a luz ao sair da sala, na separação correta do resíduo antes do final do expediente. Pequenas ações, sim. Mas são elas que revelam se a cultura sustentável de uma organização é real ou apenas bem comunicada.
Os números do Brasil em 2025 ajudam a entender a dimensão do desafio coletivo. O país produziu mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos, dos quais 40% foram para destinações incorretas, incluindo aterros a céu aberto e lixões, práticas vedadas pela própria Política Nacional de Resíduos Sólidos. Do total gerado, apenas 4,5% foram efetivamente reciclado, muito abaixo da meta de 20% estabelecida pela PNRS para esse mesmo ano. Parte relevante desse passivo tem origem no ambiente corporativo, e parte relevante da solução também pode vir de lá.
O movimento nas empresas existe e avança. O Panorama Sustentabilidade 2025, conduzido pela Humanizadas, revela que 76% das organizações brasileiras já adotam práticas sustentáveis com algum grau de integração, e que 24% são consideradas inovadoras, com sustentabilidade efetivamente incorporada à estratégia de negócio. O desafio que persiste está na profundidade: menos da metade das empresas conecta sustentabilidade à gestão financeira, seja por meio de dados, metas ou indicadores concretos. Sem mensuração, o compromisso existe, mas não se transforma.
Quando a lógica do Reduzir, Reutilizar e Reciclar é levada a sério no cotidiano das operações, os resultados aparecem em dois lugares ao mesmo tempo: na pegada ambiental e no caixa. Reduzir o consumo de energia, água e papel não exige grandes investimentos; exige processos revisados, metas visíveis por área e lideranças que incorporam o comportamento que esperam dos times. Reutilizar materiais, equipamentos e embalagens é uma decisão operacional que, quando sistematizada, gera economia real e reduz a pressão sobre a cadeia de fornecedores. Reciclar corretamente, com coleta seletiva estruturada e destinação rastreável, é o piso mínimo de qualquer organização que leva a sério sua responsabilidade ambiental.
A separação de lixo para coleta seletiva já é adotada por 87% das médias e grandes empresas brasileiras, segundo a pesquisa FGV-SEBRAE. O passo seguinte, que ainda é o mais difícil, é garantir que essa separação seja feita corretamente por todos os colaboradores, em todos os turnos, com infraestrutura adequada e comunicação contínua. Coleta seletiva sem educação ambiental ativa produz material contaminado, que segue para o aterro de qualquer forma.

