Por Vanessa Ramalho, diretora executiva da Walk4Good
O tema do Dia da Terra em 2026 é “Our Power, Our Planet”, e ele carrega uma premissa clara: o progresso ambiental não depende de uma única decisão histórica ou de um governo específico. Depende de continuidade. De organizações e pessoas que seguem em frente mesmo quando as câmeras se apagam e as conferências encerram.
É a partir dessa lógica que vale olhar para os dados. Não os das declarações de intenção, mas os que descrevem o estado real das coisas e o tamanho do caminho que ainda está à frente.
O que os números mostram
Os dez países que mais emitiram gases de efeito estufa em 2025, entre eles o Brasil, respondem juntos por 66% das emissões globais. Com a União Europeia, esse número chega a 77%. A concentração é expressiva: a maior parte do problema está em um grupo relativamente pequeno de economias.
Os combustíveis fósseis representam cerca de 84% da matriz energética mundial, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). As fontes renováveis cobrem aproximadamente 11%. A meta acordada internacionalmente é triplicar essa participação até 2030, o que exige adicionar cerca de mil gigawatts de capacidade renovável por ano e investimentos da ordem de US$ 1,4 trilhão anuais, só nesse setor.
Há também um indicador que merece mais atenção do que costuma receber: o Dia de Sobrecarga da Terra, calculado anualmente pela Global Footprint Network. Ele marca a data em que a demanda humana por recursos naturais supera o que o planeta consegue regenerar no ano inteiro. Em 2025, essa data foi 24 de julho, oito dias antes do registrado em 2024. Nos últimos cinco meses de cada ano, o mundo opera no déficit ecológico. Esses números não são alarme, são diagnóstico.
O espaço entre o que se assina e o que se pratica
A temporada de grandes conferências climáticas deixou compromissos importantes na mesa. A Walk4Good acompanhou de perto esses debates, incluindo a COP30 em Belém, e o que ficou mais evidente naquele espaço vale para qualquer fórum climático: acordos de plenária precisam encontrar equivalência nas decisões de negócio do dia a dia.
A agenda ESG chegou ao centro do debate empresarial. O que ainda é menos comum é ver essa agenda saindo do relatório anual e entrando no planejamento estratégico real, com metas verificáveis, governança clara e accountability que vá além do ciclo de comunicação.
As decisões de negócio, seja na escolha de fornecedores, nos modelos logísticos, na gestão de resíduos ou na política de produto, fazem parte de um sistema maior. Ignorar essa conexão não é neutralidade. É uma escolha com consequências mensuráveis.
Uma pergunta para levar além do dia 22
O Dia da Terra tem uma função legítima: manter o tema presente, ampliar o alcance do debate, mobilizar quem de outra forma não estaria atento.
Mas o trabalho que importa não cabe em uma data.
Para quem toma decisões em empresas e organizações, vale uma pergunta objetiva: se os impactos ambientais das suas operações fossem completamente visíveis e mensuráveis para clientes, investidores e comunidades afetadas, o que mudaria na forma como você opera hoje?
A resposta diz muito sobre onde uma organização realmente está na sua jornada de sustentabilidade. E é a partir dela que o trabalho concreto começa.

