Por Patrícia Kishimoto
Quando alguém tem a oportunidade de conversar com quem é da Amazônia, logo percebe uma fala empolgada, cheia de amor e orgulho. Empolgada porque não é sempre que nos dão espaço para falar desse pedaço de Brasil que o próprio brasileiro desconhece. Cheia de amor e orgulho, porque queremos que todos conheçam nossas tradições, cultura e o modo de viver do amazônida.
Por isso, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) tem sido uma ótima vitrine para o Pará e o Amazonas. Os estados hoje funcionam como principais portas de entrada para a Amazônia e já percebem um movimento diferente.
De acordo com levantamento do Ministério do Turismo, em parceria com a Embratur e a Polícia Federal, o Pará recebeu 10.659 turistas estrangeiros nos cinco primeiros meses de 2025, um aumento de 27% em relação ao mesmo período de 2024, quando o estado contabilizou 8.388 visitantes. Já o Amazonas registrou 14.653 turistas internacionais, frente a 12.347 no ano anterior, o que representa um crescimento de 18,7%.
Polêmicas à parte sobre a estrutura de Belém para receber um evento desse calibre e os preços superinflados, a COP30 é uma oportunidade para que brasileiros e estrangeiros façam uma breve imersão na cultura regional, conheçam e apreciem pratos como o autêntico tacacá. De origem indígena, a iguaria é servida em uma cuia e produzida a partir de dois derivados da mandioca – caldo de tucupi e goma de tapioca -, camarão seco e jambu, uma erva que causa uma leve dormência na boca, consumido geralmente no final da tarde e preparado com maestria pelas “tacacazeiras”. É uma tradição cultural paraense e reproduzida em toda a Região Norte, cada estado com sua própria receita, mas sempre respeitando a base de preparo.
Será uma chance também de provar o verdadeiro açaí, alimento que ganhou popularidade nos últimos anos no restante do Brasil e do mundo por suas propriedades nutritivas. O Pará é o principal produtor, responsável por mais de 90% da produção mundial. Seu cultivo está concentrado em pequenos municípios como Igarapé-Miri, Cametá e Abaetetuba e é importante para a geração de emprego, renda e economia local em comunidades rurais, que também funcionam como guardiãs da floresta e são as mais afetadas, ou as primeiras a sentirem na pele, as mudanças climáticas.
Quem conseguir sair um pouco de Belém e visitar comunidades ribeirinhas, quilombolas e tantas outras, conhecerá um modo de vida simples, sem muitas das comodidades das grandes cidades, desafiante em diversos momentos, mas extremamente rico em saberes adquiridos da observação, da vivência diária com a floresta. Povos que são importantes para manter a Amazônia viva, em pé, mas sempre ficam de fora das grandes discussões e das decisões sobre essa mesma Amazônia.
Sendo assim, a COP30 transcende a importância de ser apenas um palco de discussões climáticas globais, configurando-se como uma vitrine crucial para a Amazônia, que se abre ao Brasil e ao mundo. A conferência não só impulsiona o turismo e a economia local, como oferece uma imersão cultural rica. É uma oportunidade ímpar para valorizar a voz, a cultura e o modo de vida do amazônida, essenciais para a conservação da maior biodiversidade do mundo, garantindo que suas tradições e o papel vital dessas comunidades na luta contra as mudanças climáticas ganhem o merecido destaque e participação nas decisões futuras.
Patrícia Kishimoto é analista de comunicação sênior na Imagem Corporativa. Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas, cresceu e viveu em Manaus por mais de 20 anos, para onde viaja anualmente para renovar sua conexão com a Amazônia.

