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Delícias do Bosque leva saberes da periferia de Belém à COP30

Walk4Good

Publicado em

04 de novembro de 2025

O Delícias do Bosque, empreendimento familiar da periferia de Belém, foi selecionado pelo Prato Firmeza Amazônia para operar na COP30. À frente da cozinha está Ana Maria Amador Batista, que transformou a trajetória de trabalhadora doméstica em um negócio que preserva técnicas e ingredientes tradicionais. Ela relata mudanças na base da cadeia alimentar local, como camarão e peixes mais escassos em determinadas épocas e conecta esse cotidiano às pressões climáticas que afetam renda, abastecimento e segurança alimentar.

Na operação do evento, o responsável pelo planejamento é Eduardo do Espírito Santo Cravo, marido de Ana Maria. Ele estruturou um cardápio de alta rotatividade e baixo desperdício, com destaque para o frito do vaqueiro, receita marajoara concebida historicamente para conservar carne em ambientes sem refrigeração. Outra opção muito conhecida é o peixe frito e açaí. A meta é atender de 1.000 a 1.500 pedidos diários, mantendo padrão sanitário e constância de fornecimento. Para Eduardo, escalar produção sem descaracterizar o preparo é parte do desafio logístico e um ponto central para que cozinhas de base territorial que participem de grandes eventos.

A ponte com a COP30 foi construída pelo Prato Firmeza Amazônia. Segundo Jéssica Mota, coordenadora do projeto, a curadoria busca visibilidade para negócios que conectam comida, território e clima. Ela avalia que o debate oficial ainda incorpora de forma limitada a relação entre alimentação e emissões, enquanto soluções de baixa emissão e regenerativas já existem em cozinhas familiares, quintais agroflorestais e cadeias curtas de abastecimento. O caso do Delícias do Bosque, afirma Jéssica, ilustra como empreendimentos populares podem gerar renda e, ao mesmo tempo, fortalecer práticas alimentares que dependem da floresta em pé.

O Prato Firmeza Amazônia, iniciativa da Énois, foi a ponte. O projeto não é um catálogo de restaurantes. É uma política pública não institucionalizada que mapeia, forma, comunica e projeta empreendedores da comida que nasce das comunidades tradicionais e periferias. Ao conectar comunicação comunitária, soberania alimentar e justiça climática, oferece argumento e método para o que a FAO reconhece como sistemas alimentares resilientes: diversidade de cultivos, manejo tradicional, respeito aos ciclos, uso integral de ingredientes, economia de proximidade. “Sem justiça alimentar, não há justiça climática”, repete a equipe do Prato Firmeza como quem devolve a centralidade a quem planta, pesca, colhe e cozinha. Quando a COP proíbe tucupi, maniçoba e açaí de certos espaços, o recado é duro: a modernidade ainda tem dificuldade em aceitar que a solução está no quintal de quem sempre alimentou a cidade. A resposta, então, é persistir. É cozinhar e explicar, com paciência, por que certas técnicas são ciência, por que certos rituais são saúde, por que alguns pratos preservam rios e pessoas.

A presença do Delícias do Bosque na conferência consolida duas agendas: inclusão econômica de produtores periféricos e reconhecimento de técnicas tradicionais como parte da resposta climática. Para Ana Maria e Eduardo, levar um prato de origem quilombola ao público internacional é oportunidade de negócio e de afirmação cultural, já para a curadoria do Prato Firmeza, é um exemplo prático de transição alimentar justa em um dos territórios mais estratégicos do planeta.

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