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Quando o clima entra em campo

Walk4Good

Publicado em

05 de junho de 2026

Por Sam Maryama, diretor da Walk4Good

Hoje é Dia Mundial do Meio Ambiente. Em seis dias, começa a Copa do Mundo. Bilhões de pessoas vão parar para assistir. É exatamente esse o tamanho de atenção que o clima precisa.

O futebol é provavelmente o maior fenômeno cultural do planeta. Uma multidão se conecta ao mesmo tempo, torce para o mesmo time, sente a mesma emoção. Essa é exatamente a escala que a crise climática exige e que raramente conseguimos alcançar com dados, relatórios ou declarações de política ambiental.

Então, neste Dia do Meio Ambiente, prefiro falar de futebol. Ou melhor: falar de clima por meio do futebol.

Pela primeira vez na história, 48 seleções vão disputar uma Copa em três países simultaneamente. São 104 partidas, 16 cidades, e um volume incontável de voos, deslocamentos e energia consumida.

Estudos da Scientists for Global Responsibility estimam que esta edição pode gerar mais de 9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, praticamente o dobro da média das últimas quatro Copas. Mas o dado que mais chama atenção é outro: análises do World Weather Attribution indicam que aproximadamente 1 em cada 4 jogos pode ocorrer em condições de calor consideradas preocupantes para atletas e torcedores. Em cidades como Miami, Dallas e Houston, o índice WBGT, que combina temperatura, umidade e radiação solar, pode ultrapassar os limites que especialistas em medicina esportiva consideram seguros. O pano de fundo é ainda mais preocupante: a NOAA emitiu alerta de El Niño para o período do torneio, com probabilidade superior a 80% de o fenômeno se estabelecer justamente entre junho e julho, elevando temperaturas e umidade nas cidades sede.

O calor extremo já é um adversário dentro de campo. E ele não precisa de convocação.

O que os atletas estão dizendo

Em maio deste ano, atletas de mais de 20 países assinaram uma carta aberta à FIFA. O argumento central era claro: as temperaturas crescentes já afetam a segurança, o desempenho físico e o bem-estar mental dos atletas.

Jimmy Keohane, do Galway United e signatário da carta, resumiu bem a situação: no calor do momento, você não vai decidir parar. Você espera que os organizadores do jogo te protejam.

Essa frase diz muito além do futebol. Quantas vezes, nas empresas e nas decisões do dia a dia, delegamos a consciência climática para depois?

A FIFA afirma ter incorporado a agenda climática ao planejamento de seus eventos por meio de uma Estratégia Climática oficial, com metas de redução de 50% das emissões até 2030 e neutralidade climática até 2040. Essas metas existem e precisam existir.

O desafio não está em formular compromissos. Está em transformá-los em ação verificável. Após a Copa de 2022 no Catar, um órgão regulador suíço classificou as alegações de neutralidade climática da entidade como não comprováveis. A distância entre o discurso e a prática é onde reside o maior risco, reputacional e, mais importante, climático.

Isso não é uma crítica isolada ao futebol. É o desafio central de toda organização que se propõe a agir pelo clima.

Um convite para este 5 de junho

A crise climática costuma parecer distante. Os dados são grandes demais, os prazos são longos demais, a responsabilidade parece difusa demais.

O futebol é o oposto disso. Ele é imediato, emocional, concreto. Você sente na pele quando o calor interrompe uma partida.

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, o que proponho é simples: use a Copa como porta de entrada. Leve o tema para sua empresa, sua equipe, sua família. A consciência climática não precisa começar com um relatório científico. Às vezes ela começa com um jogo de futebol em pleno calor de junho e com a pergunta: por que está tão quente assim?

O planeta precisa que mais pessoas façam essa pergunta. E que não parem de fazê-la depois do apito final. Momento de reflexão pois todos nós temos que fazer escolhas melhores e agir.

 

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